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© 2019 por Cubbos

  • Rachel Carneiro de Sousa

Terceiro Setor - aprender com o ontem para planejar o amanhã: uma questão de sobrevivência


O termo Filantropia foi criado por um imperador romano (Flávio Claudio Juliano – 331 D.C.), buscando cumprir sua tarefa de restaurar o paganismo como religião dos romanos e, para isso, imitou a igreja cristã. Assim, criou o termo "filantropia" para concorrer com o termo cristão “caridade”, que era uma das virtudes da nova religião. A etimologia da palavra Filantropia remete a duas expressões gregas que juntas significam “amor ao ser humano” e essa é, historicamente, a origem da motivação para a realização de trabalhos sociais.

Ao longo dos anos, a ajuda ao próximo enquanto prática social passou a se expandir para além das organizações de caráter religioso. No Brasil, um país com altos índices de pobreza da população, a atuação social passou a ter também o caráter de suporte ao Poder Público, colaborando para garantir os direitos básicos do cidadão que o Governo não estava sendo capaz de suprir. Esse foi o “empurrão” que faltava para a ampliação das legislações que passaram a regular o terceiro setor e isso fez com que as organizações, cada vez mais, fossem obrigadas a se estruturar, não só juridicamente, mas também em suas práticas de gestão, para que pudessem receber repasses de recursos financeiros do Governo para realização de suas atividades.


Com o passar do tempo, um novo olhar foi incorporado a essa prática, deixando para traz o caráter assistencialista de “suprir o que o Governo não consegue”. E, nesse cenário, as organizações passaram a se imbuir de causas e temas que não estavam na pauta do Governo e dos direitos essenciais. O olhar se lançou cada vez mais para a preocupação com a melhoria da qualidade de vida e a redução da pobreza em caráter definitivo e não somente de sobrevivência momentânea. Daí para falarmos de bem-estar (dos animais e das pessoas), dignidade, defesa de direitos, inclusão, igualdade de direitos, empoderamento, oportunidade para todos e sustentabilidade foi questão de poucos anos. Além disso, a popularização das leis de incentivos fiscais a partir do início dos anos 90 ajudou a trazer em maior volume o recurso de empresas privadas, especialmente para o acesso à cultura (mas também criança e adolescência, idoso, saúde e esporte), que passou também a ficar em evidência.


De lá para cá, os avanços se intensificaram, as empresas precisaram também se profissionalizar para escolher quais projetos patrocinar, seguindo legislações específicas e suas regras de compliance. Houve um boom de Institutos e Fundações ligados a empresas que nasceram para gerenciar os recursos, realizar ou gerir os projetos e alocar a inteligência social necessária. Além disso, com o nascimento da Associação Brasileira de Captadores de Recursos – ABCR, muitas organizações também avançaram nas práticas e conhecimentos para captação junto a pessoas físicas, cultura cada vez mais em expansão no Brasil.


Hoje, as possíveis fontes de recursos financeiros para projetos e organizações sociais são diversas (Governo, eventos, Major Donnors, pequenos daoadores, empresas, incentivos fiscais, fundos e fundações internacionais, entre tantos outros), fazendo com que a excelência em gestão no terceiro setor não seja mais uma alternativa, mas uma necessidade e, mais do que isso, uma condição para o sucesso das organizações sociais no futuro.


Do ponto de vista das causas sociais, as organizações trouxeram a inovação para a sua pauta e o terceiro setor passou também a ser o espaço de experimentação de novas soluções para problemas sociais, já que poderia fazer isso em pequena escala, antes que a iniciativa estivesse pronta para se tornar escalável ou uma política pública para muitos. Se antes a organização social era uma extensão do Poder Público, agora ela experimenta novas soluções sociais para influenciar os Governos posteriormente. Com isso, preocupações como transparência e comprovação do impacto social como forma de direcionar melhor os recursos financeiros para esse tipo de iniciativa ganharam uma enorme importância e serão as grandes preocupações no terceiro setor para os próximos anos.

Diante desse cenário, muitas organizações sociais despontam, mas outras não. Há ainda resistência às mudanças de gestão ou de governança, por exemplo. Mas a resistência no aprimoramento do discurso talvez seja a maior delas. Muitas continuam mostrando quais atividades oferecem e até sabem demonstrar a importância da causa que defendem (pelo menos em partes), mas pouquíssimas realmente demonstram o porquê de resolverem se comprometer com determinada causa e realizarem o trabalho da maneira que realizam. Então, a legitimidade de atuação passa a ser a grande chave de tudo. Não basta entender do problema social se não há boas práticas de gestão e transparência. Não adianta ter transparência, mas não ter certeza se está gerando impacto social positivo. Não basta ter a melhor prática de gestão se não compreende (e vivencia) a fundo a realidade social com a qual está lidando (e todos os seus vieses).


O futuro do terceiro setor é, portanto, construir uma atuação legítima, que consiga agregar o conhecimento do cenário social a ser trabalhado, a excelência em gestão, as práticas de transparência e a confirmação do impacto social positivo gerado. Esses quatro pilares juntos demonstram uma grande responsabilidade com os recursos financeiros empregados para uma ação social e uma grande responsabilidade para com o público que será (realmente) beneficiado com as ações. Legitimidade e geração de valor compartilhado!